Não existe manual para o dia seguinte. O luto não é uma falha, não é um sinal de fraqueza e muito menos algo que o tempo, por si só, apaga como uma borracha. Na verdade, a dor que sentimos hoje é a assinatura psíquica de um vínculo que foi — e continua sendo — essencial. É o preço, por vezes altíssimo, que aceitamos pagar pela coragem de ter amado profundamente.
Quando o mundo perde uma peça que era o nosso alicerce, como uma mãe, a mente entra em choque. A psicanálise nos ensina que vivemos sob uma "ilusão protetora": acordamos todos os dias achando que o fim é algo que só acontece no quintal do vizinho. Quando a realidade bate à nossa porta e leva quem nos deu a vida, essa ilusão desmorona, deixando a verdade nua e crua diante de nós.
Para Freud, o luto é um processo de "desligamento". Mas não se engane: esse desligamento não é esquecimento. É quando toda aquela energia emocional que investimos no outro precisa, lentamente, encontrar o caminho de volta para dentro de nós. E esse retorno não é suave; ele acontece rasgando, de forma confusa, lenta e, muitas vezes, silenciosa.
É como se tentássemos desamarrar um nó que não queríamos que fosse solto. A nossa mente racional entende a partida, mas o nosso íntimo, o nosso psiquismo, ainda não aceitou. A natureza humana tem dificuldade em lidar com o "fim", porque fomos feitos para acreditar na eternidade dos momentos felizes e dos abraços que nos protegem.
O luto é complexo porque ele nos tira mais do que a pessoa física; ele nos tira a ilusão de que temos controle sobre o tempo. Ele nos faz perceber que nada é definitivo e que a vida é um sopro. Mas é aqui que a beleza da transformação começa a agir. A dor não quer ser apagada; ela quer ser atravessada, vivida e, por fim, ressignificada.
A cura não acontece quando paramos de sentir saudade, mas quando aceitamos que, embora a vida continue de um jeito diferente, o amor permanece intacto. Aquela pessoa que você perdeu não deixou de existir dentro de você. Ela agora habita as suas memórias, os seus gestos, o seu modo de ver o mundo e cada palavra que você escreve.
Com o tempo, a dor aguda diminui de intensidade, dando lugar a uma saudade que faz companhia. Você aprende a respirar de novo, a sorrir de novo, e percebe que o vínculo se transformou em algo espiritual e eterno. Ninguém precisa — e nem deve — atravessar esse deserto sozinho ou em silêncio. Pedir ajuda e compartilhar a dor é o primeiro passo para a libertação.
Seja gentil com o seu processo. O café pode parecer mais amargo por um tempo, e o vinho pode trazer lágrimas antes do conforto, mas saiba que cada gota de sentimento é uma prova de que a sua mãe foi, e sempre será, uma parte extraordinária da sua existência. O amor dela é a bússola que continuará guiando seus passos, mesmo que em silêncio.
Que possamos dar forma à nossa dor para que ela não nos soterre. Que a memória seja o abraço que o corpo não pode mais dar. Afinal, enquanto houver lembrança, nunca haverá um adeus definitivo, apenas um "até que a gente se reencontre em cada detalhe da vida".
Fontes: Freud, S. "Luto e Melancolia" (1917), Elizabeth Kübler-Ross "Sobre a Morte e o Morrer", Bowlby, J. "Apego e Perda".
Gu Ferrari

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